Em meio a tantos acontecimentos grotescos na política nacional e internacional, em meio às Olimpíadas, ao extermínio silencioso da população negra, gay, trans, em meio às remoções em função de uma cidade higienizada, em meio à exclusão da maioria dos cariocas ao direito de morar e transitar pela cidade, em meio ao golpe, ao silenciamento da democracia, à perda de direitos básicos, ao sucateamento das escolas e do ensino superior, em meio à bancada evangélica tomando poder na sua forma mais grotesca e preconceituosa em meio a... (infelizmente a lista é tão extensa e triste que prefiro parar por aqui), tive um baque há alguns meses ao perceber que minha voz era pequena, quase nula, que repetia diariamente coisas para amigos e amigas que já sabiam a minha opinião e concordavam. Eu me fortalecia nesse eco de vozes unificadas, mas era evidente que só atingia quem já queria me ouvir (a gente só aprende o que já sabe?). Me senti muda, impotente, ao gritar, ao escrever, ao levantar cartazes, porque ao meu redor existia uma surdez absoluta, um total aniquilamento do diálogo e da troca de ideias diferentes. Então me calei. Me calei virtualmente. Me calei fisicamente. Parei de ir para as ruas. Me calei, tentei refletir sobre onde eu estava, o que fazia. Refletir sobre as máquinas internas do sistema, que eu entendo tão pouco.
Como é difícil... Vejo que a força presente nas ocupações, nas ruas, na militância diária é necessária, mas não achei o meu lugar ali. Não achei e me sentia falsa apenas compartilhando, compartilhando para os meus, apoiando com um clique, sentada... E quando saía, percebia a força do coletivo que grita, que luta e que quer, mas as vozes dissonantes também me assustavam e me retraía ao reconhecer velhas fórmulas de politicagem disfarçadas, e percebia que nunca tive a malícia necessária para contornar os desvios que um discurso de lobo em pele de cordeiro pode alcançar.
Mas, apesar de tudo, é preciso continuar. Mas como não proclamar o discurso hipócrita da “intelectual sensível” que faz sua arte enquanto tudo desmorona ao redor? Por isso também calei. Era como estar numa cúpula falando comigo mesma que o teatro e a arte irão salvar a humanidade e que então tudo bem, porque é isso que precisar ser feito e é aos poucos, aos poucos, aos poucos... Ignorando que 90% das pessoas que eu conheço não vão ao teatro. Ignorando a pífia quantidade de leitores no país, ignorando...
Percebem em que labirinto me coloco? É fundamental o desenvolvimento do pensamento sensível e crítico através do acesso à arte, isso é transformador. A busca pela experiência coletiva, através do lúdico, do jogo, do rito, é o que vai nos tirar do poço sem fundo da busca cega pelo lucro e pelo consumo em que nos encontramos, gerando uma sociedade depressiva, arrogante, alienada. O cotidiano massacra qualquer tentativa de diferenciação, do direito de apenas ser, ou de se permitir descobrir algo que não siga um protocolo. Eu sei. Mas ainda assim, as ações parecem insuficientes, invisíveis.
Ainda quieta, ainda observando, e tentando estar consciente de todas as contradições que esse texto (talvez inútil) envolve, admito que não há outra escolha para mim que não seja a de fazer e estar no teatro. Se é o que continua pulsando, utilizo essa ferramenta como ação porque ainda que como uma fagulha, a cada dia de apresentação, a cada tentativa de circulação, a cada não que aceito de cabeça erguida pronta para outra, é o que ainda faz sentido por aqui. Ainda que sem dinheiro, ainda que sem espaço (um teatro inteiro cabe no corpo do ator), não posso deixar de me apresentar nunca, porque é no brilho do olhar do outro, é no susto pelo estranho, é na revolta da discórdia, é no diálogo para o novo que eu percebo que ainda estamos vivos, e fortes. Atuar no dissenso. Então, torço para que as pessoas encontrem o que faz sentido por aí, o que faz vibrar, e que a gente descubra uma força nova e limpa, a partir do esgotamento em que nos encontramos. Não é uma solução, mas “o fim está no começo e no entanto continua-se”.