"(...) Queremos
muito mais e coisa bem melhor para o teatro: uma vocação que seja sua, que
proceda de uma legitimidade sem fissura e nos conduza a este mundo que terá que
ser refeito, para fundamentar a irredutibilidade de sua inteligência e de seus
prazeres.
Qual
pode ser então a sua necessidade? Do ponto de vista da cena, ela se mostra como
necessidade prática do jogo. Há teatro por necessidade dos homens de jogar.
Ora, nosso mundo conhece, como outros mundos antes dele, um número quase
infinito de jogos: dignos ou vis, jogos físicos, de cartas ou de signos, de
piões ou de peças, de papéis ou de dinheiro. O que torna necessário este jogo
entre outros? A singularidade de seu campo e de suas regras. O teatro, hoje,
está desnudado, consiste no jogo da apresentação da existência em sua precisão
e em sua verdade. Suas regras são em número finito, mas uma delas prescreve
todas as outras: aquela que exige que esta apresentação encontre sua fonte e
sua origem íntima no confronto entre a existência e a poesia. O teatro é o jogo
deste existir que oferece o lançar de um poema. Só o teatro faz isto: só ele
lança o poema para diante de nossos olhos, e só ele lança e entrega a
integridade de uma existência. Comandadas por este lançar, que vem dos extremos
poéticos, da língua, da nudez, a precisão e a verdade fazem do teatro uma
necessidade – absoluta.
Ora,
este jogo singular requer uma comunidade de pessoas que olhem. Porque sua
singularidade como jogo é ser o jogo da mostração, da exibição, da
apresentação, do fazer-ver e do fazer-ouvir, jogo da visão e da ostentação,
cujo modo de efetuação requer um olhar compartilhado, coletivo. A exposição
teatral da existência não é a exibição íntima diante de um observador
solitário. Porque seu princípio é poético, e não figural. Claro, a poesia pode
ser lida na solidão. Mas não ser vista.
As figuras podem ser contempladas no silêncio, no recolhimento. Mas a aventura
de uma existência brincada, jogada, entregue ao olhar sob a batuta do poema,
compromete uma assembleia ou, ao menos, um compartilhar, atual, efetivamente
comum. É, sem dúvida, um pouco misterioso e a perseverança do teatro, sua
estranha insistência, faz deste enigma, imperiosamente, uma tarefa para o
pensamento. A existência se entrega à
visão comum: sem dúvida, para além da evidência do fato, é isto o que, por
muito tempo ainda, será, sem dúvida, necessário pensar."
Trecho do livro: O teatro é
necessário? de Denis Guénoun.
Imagem: Espetáculo Shizen - 7 Cuias do Lume Teatro






