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12 de janeiro de 2015

Substituição de atores: uma questão ética (por Ana Cecilia Reis)

Na Cia Plúmbea, todo processo de montagem de um espetáculo teatral parte do treinamento do ator acerca de uma temática ou estimulo, estabelecendo conquistas únicas e individuais. As ideias são criadas a partir da disposição e criatividade dos atores, que montam partituras, improvisam, fazem suas escolhas estéticas. A direção é responsável pela concepção do trabalho, o treinamento e a inserção do material produzido pelo ator na montagem. Mas todos esses papéis podem ser mexidos de acordo com a necessidade do trabalho. Acreditamos que um espetáculo não pode ser desenvolvido se existe alguma insatisfação interna ou dúvida de quem o faz, por isso é necessário diálogo constante para verificar por qual caminho a pesquisa está seguindo e se todos estão de acordo e felizes. É importante que toda a equipe saiba justificar de forma embasada as escolhas estéticas do trabalho, bem como estar ciente dos processos de realização.

                Visto isso, cada montagem se torna uma vivência única, partindo de uma experiência e troca como grupo. Entretanto, para existirmos como companhia, como grupo ativo, devemos nos submeter a uma estrutura de produção cultural que está ligada ao mercado de trabalho. Enviamos projetos e propostas para diversos espaços de apoio à cultura, dentre eles, editais, leis de incentivo, pautas em teatros, festivais, etc. E a partir desses pensamentos entre produção e criação, me veio uma questão: a maioria das cias sofrem com a substituição de elenco. Comecei a refletir se isso seria possível em um grupo que trabalha a partir de longos processos individuais. 

Por termos um processo tão específico, poderia se pensar que se um ator quisesse sair do trabalho não teríamos a possibilidade de substituí-lo e assim o espetáculo sairia de circulação. A questão é que o espetáculo, enquanto realização, tem muita potência e merece ocupar seu espaço. Uma pergunta importante: como continuar a circular com um espetáculo de pesquisa de forma ética, sem o ator que colaborou para sua realização?

Em primeiro lugar, não acredito que um ator possa ser substituído. Seria uma incoerência afirmar que pesquisamos a arte de ator e substituí-lo por outro em função de um edital ou venda de um projeto. Mas para cada projeto existe uma pesquisa específica, que parte de muitos estímulos iniciais, desde o texto até estímulos sonoros e visuais. Por isso, se queremos resgatar algum espetáculo, teremos que resgatar o processo de pesquisa com outro ator. Obviamente, durante esse processo o objetivo e as formas já estão definidos, então, o desafio será fazer com que o ator conquiste a organicidade do trabalho partindo novamente dos exercícios utilizados na pesquisa anterior. Dessa forma, o ator vai se apropriar do trabalho com segurança.

Partindo de um trabalho com ênfase na fisicalidade e acreditando no ator como compositor de sua própria obra, é claro que o novo ator fará coisas diferentes do anterior, pois o seu corpo é outro e a sua forma de passar pelas experiências também. Isso pode modificar o espetáculo, reavivando-o. O importante é estar aberto a essas mudanças e manter a essência do trabalho. Como foi dito no inicio, o desafio é fazer com que mesmo estando inserido tardiamente em uma montagem já concebida, o ator se sinta integrado, lúcido e consciente do que está fazendo em cena. Dessa maneira, ele não é um ator substituto e sim um novo colaborador do processo, e o trabalho não perde sua qualidade. O importante é não se enganar, não inventar desculpas para si mesmo. Essa forma de trabalho demanda tempo. Caso o processo não esteja dando certo, ou as coisas estejam corridas por conta de prazos, é preciso rever as prioridades, pois cada grupo tem seu discurso ideológico e ético. No caso da Cia Plúmbea o trabalho com o ator vem antes da produção de um espetáculo e tem mais importância, por isso, sem um longo prazo para uma vivência real de um processo, não é possível concretizar a montagem que queremos.



imagem retirada do site: http://www.giovannifusetti.com/

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