Na Cia Plúmbea,
todo processo de montagem de um espetáculo teatral parte do treinamento do ator
acerca de uma temática ou estimulo, estabelecendo conquistas únicas e
individuais. As ideias são criadas a partir da disposição e criatividade dos
atores, que montam partituras, improvisam, fazem suas escolhas estéticas. A
direção é responsável pela concepção do trabalho, o treinamento e a inserção do
material produzido pelo ator na montagem. Mas todos esses papéis podem ser mexidos de acordo com a necessidade do trabalho. Acreditamos que um espetáculo não
pode ser desenvolvido se existe alguma insatisfação interna ou dúvida de quem o
faz, por isso é necessário diálogo constante para verificar por qual caminho a pesquisa
está seguindo e se todos estão de acordo e felizes. É importante que toda a
equipe saiba justificar de forma embasada as escolhas estéticas do trabalho,
bem como estar ciente dos processos de realização.
Visto isso, cada montagem se torna uma vivência única, partindo de uma
experiência e troca como grupo. Entretanto, para existirmos como companhia,
como grupo ativo, devemos nos submeter a uma estrutura de produção cultural que
está ligada ao mercado de trabalho. Enviamos projetos e propostas para diversos
espaços de apoio à cultura, dentre eles, editais, leis de incentivo, pautas em
teatros, festivais, etc. E a partir desses pensamentos entre produção e criação, me veio uma questão: a maioria das cias sofrem com a substituição de elenco. Comecei a refletir se isso seria possível em um grupo que trabalha a partir de longos processos individuais.
Por termos um
processo tão específico, poderia se pensar que se um ator quisesse sair do
trabalho não teríamos a possibilidade de substituí-lo e assim o espetáculo
sairia de circulação. A questão é que o espetáculo, enquanto realização, tem
muita potência e merece ocupar seu espaço. Uma pergunta importante: como continuar a circular com um espetáculo de pesquisa de forma
ética, sem o ator que colaborou para sua realização?
Em primeiro lugar,
não acredito que um ator possa ser substituído. Seria uma incoerência afirmar
que pesquisamos a arte de ator e substituí-lo por outro em função de um edital
ou venda de um projeto. Mas para cada projeto existe uma pesquisa específica,
que parte de muitos estímulos iniciais, desde o texto até estímulos sonoros e
visuais. Por isso, se queremos resgatar algum espetáculo, teremos que resgatar
o processo de pesquisa com outro ator. Obviamente, durante esse processo o
objetivo e as formas já estão definidos, então, o desafio será fazer com que o
ator conquiste a organicidade do trabalho partindo novamente dos exercícios
utilizados na pesquisa anterior. Dessa forma, o ator vai se apropriar do trabalho com
segurança.
Partindo de um
trabalho com ênfase na fisicalidade e acreditando no ator como compositor de
sua própria obra, é claro que o novo ator fará coisas diferentes do anterior, pois o seu corpo é
outro e a sua forma de passar pelas experiências também. Isso pode modificar o
espetáculo, reavivando-o. O importante é estar aberto a essas mudanças e manter
a essência do trabalho. Como foi dito no inicio, o desafio é fazer com que
mesmo estando inserido tardiamente em uma montagem já concebida, o ator se
sinta integrado, lúcido e consciente do que está fazendo em cena. Dessa
maneira, ele não é um ator substituto e sim um novo colaborador do processo, e o trabalho não perde sua qualidade. O
importante é não se enganar, não inventar desculpas para si mesmo. Essa forma de trabalho demanda tempo. Caso o processo não esteja dando certo, ou as
coisas estejam corridas por conta de prazos, é preciso rever as prioridades,
pois cada grupo tem seu discurso ideológico e ético. No caso da Cia Plúmbea o
trabalho com o ator vem antes da produção de um espetáculo e tem mais
importância, por isso, sem um longo prazo para uma vivência real de um
processo, não é possível concretizar a montagem que queremos.
imagem retirada do site: http://www. giovannifusetti.com/






