"(...) Há uma frase do Lukács, do
jovem Lukács, que eu sempre me lembro: “o que é verdadeiramente social na arte
é a forma”. Portanto, a questão do teatro ser político pra mim não é
simplesmente tratar de temas e tratar de um conteúdo político, mas é ter essa
forma política. Você pode ter teatros que não são nada políticos e que tratem
de temas políticos. É a forma que vai definir.
Walter
Benjamin já tinha dito, nos anos 1920, que uma das coisas que ele achava mais
terrível na arte era os artistas usarem questões políticas para criarem
divertimento, ou provocarem diversão. Lê-se muito sobre questões políticas nos
jornais, e somos sempre bombardeados pelas informações políticas da mídia. Ou
seja, o problema não é ter todas essas informações do jornal, o que falta não é
informação sobre política. A gente sabe que existe exploração, que existe luta
de classe, que existem conflitos, que existem uma série de coisas, mas não é
isso que nos falta, não é isso que a arte vai sanar. Não é um problema de
informação sobre questões políticas.
Eu
falo, talvez, a partir de uma perspectiva europeia, alemã, francesa e inglesa,
mas tem havido muito desse teatro “político”. E eu acho que o teatro tem pouca
chance de ter, de fato, um efeito político simplesmente a partir da utilização
dessa informação, que é a informação cotidiana, diária, sobre o político. Para
mim, a coisa mais importante é como trabalhar essas informações. Política é o
modo como você trabalha a percepção dessas questões. E são essas várias formas
de percepção do político que variam. A questão já era, para Brecht, para Heiner
Müller e para todos os que trabalharam com teatro político, como você muda a
forma de percepção das questões políticas e influi nessa forma de percepção.
Para o teatro, o que é importante é a forma de mudar essa percepção, a forma
como se vai conseguir alterar essas fórmulas de percepção que estão dadas."
Hans-Thies Lehmann
* trechos do Seminário Internacional realizado em setembro de 2003, no Instituto Goethe de São Paulo, retirado do livro "O Pós-Dramático" - organizado por J. Guinsburg e Sílvia Fernandes.
Na foto: imagem de Samuel Beckett






