Para pensarmos sobre a memória...
"O jardineiro cuida do jardim. O mato toma conta. O que prefere o jardim? A memória do jardineiro que cuida ou a liberdade do mato que toma conta? Eu cuido da mente. O esquecimento toma conta. O que prefere a mente? A memória do velho que cuida ou a liberdade do esquecimento que toma conta? A memória pode ser bela, mas pesa, eu sei. O esquecimento é leve. Pode até ser alívio. Tantas histórias da família e de amigos se perdem. Para sempre? Para sempre. Nunca mais? Nunca mais. É triste? Muito. Para sempre e nunca mais são medidas de tempo que me amedrontam e, às vezes, entristecem. A memória afetiva do mundo vai se apagando, enquanto os dados do planeta cabem todos no computador. Não há nada que você possa fazer. É assim e pronto. Cada morte, seja lá de quem for, é acervo riquíssimo de experiências e sensibilidades que se queima. O incêndio é bom, é útil, é necessário? Falo da memória que emociona, não da memória que envaidece. Nos preocupamos muito com a perda desta última. Sentimo-nos humilhados quando esquecemos o nome do autor consagrado, o título do romance ou da famosíssima peça de teatro. Esta perda de memória, para mim, é lição de humildade. Mostra que a máquina aqui não tem jeito, é falha mesmo. Me faz bem à saúde, porque me vai aquietando o ego. Quero acreditar que com o tempo nos tornamos seletivos. Vamos retendo a informação que nos é importante. Os excessos, o cérebro naturalmente apaga. Mas a memória afetiva é diferente. Quando conto ao meu neto casos vividos por mim, e pessoas que me são queridas, ou que me foram passados por meus pais, não aspiro à posteridade. Bem ou mal falado, meu nome não irá além de umas poucas gerações. Pretendo apenas cuidar do meu jardim. Depois, será a vez de o mato tomar conta. Mas tudo a seu tempo.
Coleciono alguns guardados preciosos que, quando eu morrer, serão jogados fora, porque só fazem sentido para mim. A memória material deles começa e acaba para mim. Só a mim eles emocionam. Só eu lhes estimo o valor. Mas algo me diz que, haverá sempre uma caixa, pasta ou gaveta onde se esconde aquele papel de bala - que foi desembrulhada no cinema ao lado de quem nos despertava paixão. Ou o desenho da família mal colorido por fora, os bonecos de olhos esbugalhados, cabelos espetados de quem levou um choque elétrico e os garranchos "eu, papai, mamãe". Ou a rolha do champanhe de um Ano-Novo especial, o convite de formatura da afilhada, o ingresso para aquele musical com o número da poltrona 03. Ou o santinho de papel com a imagem de Nossa Senhora de Fátima que ninguém entende como foi parar ali, porque o falecido era ateu.
Fico cismado: o que aconteceria se nos fosse possível somar todo o amor que há nessas mínimas memórias guardadas em silêncio nos fundos das gavetas do mundo?"
* Retirado do capítulo arroz de bacalhau do livro Arroz de Palma de Francisco Azevedo
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5 de agosto de 2013
29 de julho de 2013
O artista hoje: entre o 'proponente' e o pedinte
No meio dessa correria de editais, leis de incentivo, captação de recurso,
eis um texto do artista plástico Almandrade para reflexão:
O que interessa na política cultural nem sempre é a arte e a cultura, e, sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea, faz-se qualquer coisa que dê "visibilidade".As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tantos editais neste País, como atualmente, para, no fim das contas, fazer da arte um "suplemento cultural", o bolo da noiva na festa de casamento.
Considerando-se, ainda, a contratação de "consultorias", funcionários, despesas de divulgação, inscrição... o trabalho árduo e apressado de seleção... é tudo, enfim, um custo considerável, que, em último caso, gera "serviços" e renda.
"O artista que passa o tempo recluso na solidão do
ateliê, trabalhando, desenvolvendo sua
experiência estética, como um operário da linguagem e do pensamento, está em
extinção. É coisa de museu.Ou melhor, é raridade nos museus
de arte, que estão deixando de ser instituições de referência da memória para
servir de cenários para legitimação do espetáculo. Às vezes, com míseros
recursos que ficamos até sem saber direito: quando nos deparamos com baldes e
bacias nessas instituições, se são para amparar a goteira do telhado ou se se
trata de uma instalação, contemplada por um edital para aquisição de obras contemporâneas...
O que interessa na política cultural nem sempre é a arte e a cultura, e, sim, o glamour. Em nome da arte contemporânea, faz-se qualquer coisa que dê "visibilidade".As políticas públicas foram relegadas às leis de incentivo à cultura e aos editais públicos. Nunca se fez tantos editais neste País, como atualmente, para, no fim das contas, fazer da arte um "suplemento cultural", o bolo da noiva na festa de casamento.
Na fala do filósofo alemão
Theodor Adorno: "As obras de arte que se apresentam sem resíduo à reflexão
e ao pensamento não são obras de arte". Do ponto de vista da reflexão, do pensamento
e do conhecimento, a cultura não é prioridade. Na política dos museus, o objeto
já não é mais o museu que se multiplicou, juntamente com os chamados
"centros culturais", nos últimos anos.
Com vaidade de supermercado, na
maioria das vezes, eles disponibilizam produtos perecíveis, novidades com prazo
de validade, para estimular o consumo, vetor de aquecimento da economia. A
qualificação ficou no papel, na publicidade do concurso.
Esses editais que bancam a
cultura são iniciativas que vêm ganhando força. Mostram ser um processo de
seleção com regras claras para administrar o repasse de recursos, muito bem
vendidos na mídia, como métodos de democratizar o "acesso" e a
"distribuição de verbas" para as práticas culturais.
Mas nem são tão democráticos
assim. Podem ser um instrumento possível e eficiente em certos casos, mas não
são a solução, é possível funcionarem, também, como escudo, para dissimular
responsabilidades pela produção, preservação e segurança do patrimônio
cultural.
Considerando-se, ainda, a contratação de "consultorias", funcionários, despesas de divulgação, inscrição... o trabalho árduo e apressado de seleção... é tudo, enfim, um custo considerável, que, em último caso, gera "serviços" e renda.
O artista contemporâneo deixa de
ser artista para ser proponente, empresário cultural, "captador" de
recursos, um especialista na área de elaboração de projetos, com conhecimentos
indispensáveis de "processo público" e interpretação de leis. Dedica
grande parte de seu tempo a esse negócio burocrático, que é a elaboração e
execução de projetos, prestações de contas etc., todos contaminado pela lógica
do marketing... coisas incompatíveis com o artista em si, que apostou na arte
como uma "opção de vida" e com forma de conhecimento, algo que exige
dedicação exclusiva...
Ou, pior ainda: o artista fica à
mercê de uma "produtora cultural", para quem essa política de editais
e fomento à cultura é, aliás, um excelente negócio...
Mais uma coisa é preocupante: e
se essa política de editais se estender até a sucateada área da saúde, por
exemplo? Imaginem uma "seleção pública" para pacientes do Sistema
Único de Saúde, que necessitem de procedimentos médicos... Os que não forem "democraticamente
contemplados", teriam de apelar para a providência divina, já engarrafada
com a demanda de tantos pedidos...
Nem é bom imaginar. Que esta
praga fique restrita aos limites da esfera cultural... Na pior das hipóteses, é
uma "torneira" que sempre se abre para atender parte de uma
superpopulação de artistas, proponentes, pedintes...
O artista, cada vez mais, é um
técnico passivo com direito a diploma de "bem comportado" em "preenchimento
de formulário". E seu produto ficou relegado ao controle dos burocratas do
Estado, e à "boa vontade" dos executivos de marketing das grandes
empresas...
Se o projeto é bem apresentado, com boa "justificativa" de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado... se é mediano, se é excepcional, não importa! O que importa é a "formatação", a "objetividade" do orçamento, a clareza das "etapas" e a "visibilidade", o "produto final"...
Se o projeto é bem apresentado, com boa "justificativa" de gastos e retornos, o produto a ser patrocinado ou financiado... se é mediano, se é excepcional, não importa! O que importa é a "formatação", a "objetividade" do orçamento, a clareza das "etapas" e a "visibilidade", o "produto final"...
Como sempre, existem as chamadas
exceções, mas.."
22 de julho de 2013
Fazer um filme (por Marcos Melo)
“Os imprevistos não só fazem
parte da viagem como são a própria viagem. Fazer um filme não é tentar com
obstinação adequar a realidade a ideias preconcebidas; fazer um filme também
significa saber reconhecer, aceitar, utilizar as progressivas alterações que os
acontecimentos contínuos e paralelos causam às ideias preconcebidas. Fidelidade
absoluta ao que se quer fazer, tudo bem, mas também aceitação do que aos poucos
vem se manifestando, porque muitas vezes não passa da secreção constante do que
se quer fazer.”
Federico Fellini
Nesse domingo, dia 21 de julho,
foi feita a gravação do primeiro filme da Cia Plúmbea, o curta-metragem Resistir, escrito e dirigido por Marcos
Melo, produzido e co-dirigido por Ana Cecília Reis. Além de uma nova
experiência, foi um grande aprendizado. Procedimentos artesanais, intuição e
conhecimentos adquiridos de forma autoditada colocados à prova pela primeira
vez. Cinema feito sob as mesmas premissas que orientam nosso trabalho no teatro,
o mesmo senso de responsabilidade que não permite desvincular ética e estética.
Queremos registrar nossa profunda
admiração e gratidão a Vera Monteiro e Raphael Janeiro, que literal e
metaforicamente foram as estrelas do dia. Dedicação e comprometimento, expertise e criatividade foram as marcas
do excelente trabalho dos atores convidados. A indispensável colaboração
técnica de Michael Andrade e Jimmy Andrade também fazem parte memorável desse
momento da Cia Plúmbea.
Agradecemos especialmente à Roberta Delamarque, Seu Zequinha e D. Ângela por terem cedido a perfeita locação e dado todo o apoio necessário para esta realização e à Linnie Reis, por nos ajudar a compor a cena com os objetos e pelo delicioso almoço para toda a equipe!
Agradecemos especialmente à Roberta Delamarque, Seu Zequinha e D. Ângela por terem cedido a perfeita locação e dado todo o apoio necessário para esta realização e à Linnie Reis, por nos ajudar a compor a cena com os objetos e pelo delicioso almoço para toda a equipe!
Alegria e senso de realização no
momento, e disposição para as próximas etapas do trabalho, edição, montagem e
distribuição! Aguardem, em breve divulgaremos mais notícias sobre o filme.
15 de julho de 2013
"A Arte de Enterrar seus Mortos" vai para a Mostra NALONA em Hortolândia-SP!
Com muita alegria informamos que fomos contemplados com o Prêmio Teatro em Hortolândia 2013. De acordo com a pontuação do júri, ficamos em 3º lugar na categoria teatro adulto. Os critérios de avaliação foram: Adequação à categoria; Criatividade, novas linguagens; Direção; Dramaturgia; Figurinos, Adereço, Maquiagem; Conjunto da obra.
Agradecemos à Comissão de Seleção e Organização do Festival, e no dia 18 de agosto estaremos apresentando o espetáculo aos hortolandenses!
Até lá!
8 de julho de 2013
Muito Obrigada, Cia Pigmentus!
Participar do aniversário de 01 ano da Casa Pigmentus foi um presente pra nós! Estamos honrados com o convite, e queremos parabenizar a Cia pela organização, qualidade, simpatia e disponibilidade na recepção de todos os grupos. A casa é incrivelmente organizada e a proposta de ocupação cultural do espaço é imperdível. Muito bom estarmos entre amigos que lutam diariamente para fazer o que amam. A festa foi linda, com um público carinhoso, generoso! A energia do espaço é mágica!
Queremos agradecer a todos que nos ajudaram, Marcela Jorge, pela ajuda com nosso cenário, Diego Deleon, pela ajuda com a operação de som (impecável), Rictheli Santana por toda a ajuda técnica, Érico Muniz pelo carinho e disponibilidade, e todos os envolvidos no evento, ao grupo de pesquisa Redoma e ao grupo Cia Mala Íntima de Teatro, companheiros de viagem, cena e libertinagem! rs
À Unirio por disponibilizar nosso transporte e ao motorista por nos aturar e nunca perder a calma, até no meio da ponte Rio-Niterói às 03 horas da manhã, após um "pequeno" acidente.
Enfim, só podemos dizer que fomos contemplados com uma belíssima demonstração de como batalhar pra fazer as coisas acontecerem da melhor maneira possível! Obrigada, Cia Pigmentus! Até a próxima!
Queremos agradecer a todos que nos ajudaram, Marcela Jorge, pela ajuda com nosso cenário, Diego Deleon, pela ajuda com a operação de som (impecável), Rictheli Santana por toda a ajuda técnica, Érico Muniz pelo carinho e disponibilidade, e todos os envolvidos no evento, ao grupo de pesquisa Redoma e ao grupo Cia Mala Íntima de Teatro, companheiros de viagem, cena e libertinagem! rs
À Unirio por disponibilizar nosso transporte e ao motorista por nos aturar e nunca perder a calma, até no meio da ponte Rio-Niterói às 03 horas da manhã, após um "pequeno" acidente.
Enfim, só podemos dizer que fomos contemplados com uma belíssima demonstração de como batalhar pra fazer as coisas acontecerem da melhor maneira possível! Obrigada, Cia Pigmentus! Até a próxima!
Apresentação na Casa Pigmentus
Pausa deliciosa para o almoço, com toda a equipe e grupos!
17 de junho de 2013
Por que se é ator? por Valère Novarina *
O ator não executa mas se executa, não interpreta mas se
penetra, não raciocina mas faz todo o
seu corpo ressoar. Não constrói seu personagem mas decompõe seu corpo civil
ordenado, suicida-se. Não se trata de composição de personagem mas de
decomposição da pessoa, decomposição do homem ali sobre o palco.
O teatro só é
interessante quando se vê o corpo normal de quem (tenso, estacionado,
defendido) se desfazer e o outro corpo sair brincalhão malvado querendo brincar
de quê. É a verdadeira carne do ator que deve aparecer. A gente vê o corpo dos
atores, das atorezas, e é isso que é bonito: quando a verdadeira carne mortal
sexuada e linguada é mostrada a esse público de castigados que pensam em língua
francesa eterna e castrada.
O ator que representa de verdade, que representa a fundo,
que se representa do fundo – e só isso vale a pena no teatro- , carrega no seu
rosto o seu rosto desfeito (como nos três momentos: gozar, defecar, morrer),
sua máscara mortuária, branca, desfeita, vazia – parte vazia do corpo e não
mais face expressiva da cabeça, pousada sobre seu corpo gordinho – ele mostra
seu rosto, branco, carregando seu morto, desfigurado. O ator que representa
sabe que isso realmente modifica seu corpo, que isso o mata a cada vez.
E a
história do teatro, se quisermos escrevê-la do ponto de vista do ator, não
seria uma história de uma arte, de um espetáculo, mas a história de um longo,
surdo, teimoso, incessante, inacabado protesto contra o corpo humano.
(...)
O quê, o quê, o quê?
Por que se é ator, hein? Só é ator quem não consegue se habituar a viver
no corpo imposto, no sexo imposto. Cada corpo de ator é uma ameaça, a ser
levada a sério, para a ordem ditada ao corpo, para o estado sexuado; e se um
dia a gente está no teatro, é porque tem algo que a gente não suporta. Existe
em cada ator algo como um corpo novo que quer falar. Uma outra economia do
corpo que avança, que empurra a antiga, imposta.
10 de junho de 2013
Obrigada, Sobrado Boemia!
É com muito orgulho que divulgamos as fotos da nossa apresentação do espetáculo "A Arte de Enterrar seus Mortos" no dia da Boemia! A Cia Plúmbea foi o primeiro grupo a utilizar o espaço para a apresentação de um espetáculo. Esperamos que essa semente germine, e que o Sobrado seja mais um lugar para se ver e fazer teatro no Rio de Janeiro. Agradecemos a confiança e apoio dos administradores do local, Rodrigo Grisalho, Daniel Costa e Leandro Lobo. Agradecemos a equipe do We R Live que registrou o evento em tempo real! E agradecemos ao público querido, fiel e atento que lotou a casa de energia! Até a próxima!
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