O ator não executa mas se executa, não interpreta mas se
penetra, não raciocina mas faz todo o
seu corpo ressoar. Não constrói seu personagem mas decompõe seu corpo civil
ordenado, suicida-se. Não se trata de composição de personagem mas de
decomposição da pessoa, decomposição do homem ali sobre o palco.
O teatro só é
interessante quando se vê o corpo normal de quem (tenso, estacionado,
defendido) se desfazer e o outro corpo sair brincalhão malvado querendo brincar
de quê. É a verdadeira carne do ator que deve aparecer. A gente vê o corpo dos
atores, das atorezas, e é isso que é bonito: quando a verdadeira carne mortal
sexuada e linguada é mostrada a esse público de castigados que pensam em língua
francesa eterna e castrada.
O ator que representa de verdade, que representa a fundo,
que se representa do fundo – e só isso vale a pena no teatro- , carrega no seu
rosto o seu rosto desfeito (como nos três momentos: gozar, defecar, morrer),
sua máscara mortuária, branca, desfeita, vazia – parte vazia do corpo e não
mais face expressiva da cabeça, pousada sobre seu corpo gordinho – ele mostra
seu rosto, branco, carregando seu morto, desfigurado. O ator que representa
sabe que isso realmente modifica seu corpo, que isso o mata a cada vez.
E a
história do teatro, se quisermos escrevê-la do ponto de vista do ator, não
seria uma história de uma arte, de um espetáculo, mas a história de um longo,
surdo, teimoso, incessante, inacabado protesto contra o corpo humano.
(...)
O quê, o quê, o quê?
Por que se é ator, hein? Só é ator quem não consegue se habituar a viver
no corpo imposto, no sexo imposto. Cada corpo de ator é uma ameaça, a ser
levada a sério, para a ordem ditada ao corpo, para o estado sexuado; e se um
dia a gente está no teatro, é porque tem algo que a gente não suporta. Existe
em cada ator algo como um corpo novo que quer falar. Uma outra economia do
corpo que avança, que empurra a antiga, imposta.

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