Pesquise o conteúdo deste blog!

17 de junho de 2013

Por que se é ator? por Valère Novarina *

O ator não executa mas se executa, não interpreta mas se penetra, não raciocina  mas faz todo o seu corpo ressoar. Não constrói seu personagem mas decompõe seu corpo civil ordenado, suicida-se. Não se trata de composição de personagem mas de decomposição da pessoa, decomposição do homem ali sobre o palco. 

O teatro só é interessante quando se vê o corpo normal de quem (tenso, estacionado, defendido) se desfazer e o outro corpo sair brincalhão malvado querendo brincar de quê. É a verdadeira carne do ator que deve aparecer. A gente vê o corpo dos atores, das atorezas, e é isso que é bonito: quando a verdadeira carne mortal sexuada e linguada é mostrada a esse público de castigados que pensam em língua francesa eterna e castrada.

O ator que representa de verdade, que representa a fundo, que se representa do fundo – e só isso vale a pena no teatro- , carrega no seu rosto o seu rosto desfeito (como nos três momentos: gozar, defecar, morrer), sua máscara mortuária, branca, desfeita, vazia – parte vazia do corpo e não mais face expressiva da cabeça, pousada sobre seu corpo gordinho – ele mostra seu rosto, branco, carregando seu morto, desfigurado. O ator que representa sabe que isso realmente modifica seu corpo, que isso o mata a cada vez. 

E a história do teatro, se quisermos escrevê-la do ponto de vista do ator, não seria uma história de uma arte, de um espetáculo, mas a história de um longo, surdo, teimoso, incessante, inacabado protesto contra o corpo humano.

(...)

O quê, o quê, o quê?  Por que se é ator, hein? Só é ator quem não consegue se habituar a viver no corpo imposto, no sexo imposto. Cada corpo de ator é uma ameaça, a ser levada a sério, para a ordem ditada ao corpo, para o estado sexuado; e se um dia a gente está no teatro, é porque tem algo que a gente não suporta. Existe em cada ator algo como um corpo novo que quer falar. Uma outra economia do corpo que avança, que empurra a antiga, imposta.




* Retirado do livro "Carta aos Atores e para Louis de Funes". 

Nenhum comentário: