"Se Descartes nos ensinou, a nós modernos, a dizer "eu penso, logo existo" - a dizer, portanto, que a única vida ou existência que consigo pensar é a minha própria -, o perspectivismo ameríndio começa pela afirmação duplamente inversa: "o outro existe, logo pensa". E se esse que existe é outro, então seu pensamento é necessariamente outro que o meu. Quem sabe até deva concluir que, se penso, então também sou o outro. Pois só o outro pensa, só é interessante o pensamento enquanto potência de alteridade. O que seria uma boa definição da antropologia. E também uma boa definição de antropofagia, no sentido que este termo recebeu em certo alto momento do pensamento brasileiro, aquele representado pela genial e enigmática figura de Oswald de Andrade: "Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago." Lei do antropólogo."
Texto e foto: Eduardo Viveiros de Castro

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