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14 de março de 2021

Inspirações...

 "Sabe, eu dou esse exemplo muitas vezes, do jogo de curling sobre o gelo, esse jogo americano, onde você joga pedras que vão deslizando em cima do gelo até chegar ao alvo, e tem um outro jogador que vai varrendo na frente da pedra para diminuir o atrito dela com o gelo. Eu acho que é o diretor. Acho que é isso o que o diretor faz, tenta tirar o máximo possível de obstáculos, tira os móveis e as mobílias inúteis, tira, sobretudo, as ideias inúteis, todo o intelectualismo inútil para que (...) justamente para que (...) para que o ator lendário, a lenda, a poesia, a transformação, possam acontecer mesmo em uma cena que pareça super realista, mas que sabemos, tem uma metamorfose. Bom, agora eu vou começar a dizer coisas que eu penso, mas que sou eu que penso. Para mim, não existe teatro sem um mínimo de metamorfose. E para que essa metamorfose aconteça, eu penso que é preciso um diretor na frente varrendo, para a imaginação dos atores, porque no final das contas, são eles que fazem teatro. Eu posso provocar teatro. Eu espero provocar teatro, mas aqueles que fazem teatro, essa matéria capaz de parar a luz, são os atores. Portanto, é preciso liberar o terreno diante deles, ou então, para alguns, colocar obstáculos enormes para eles se fortaleçam, malhem. É preciso malhar essa imaginação que às vezes lhes falta, porque eles pensam demais, pensam onde não deveriam estar pensando. Que eles reflitam depois, na pausa para o café, ou fumando um cigarro (que não deviam fumar), isso é uma coisa, mas em cena eles têm que viver. Eles têm que viver. Quando vivemos, o pensamento está no corpo, não está em outro lugar."

Ariane Mnouchkine



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