Começando a criar uma
dramaturgia
Esse texto é uma continuação, clique aqui para ler a 1ª
parte.
Inspirada pelo
trabalho de Luis Otávio Burnier no LUME, referente à mimese de fotos e quadros,
para criar cenas para o espetáculo Terrabatida
comecei a estabelecer um jogo de improvisação ligado à “vibração” da imagem
estática. Ou seja, após permanecer por
um tempo em uma determinada posição, qual seria o próximo movimento dessa
xilogravura? Pensando em como essa imagem estimulava nossa energia, começamos a
pensar em posições de desequilíbrio, como forma de investigar outro corpo
autoral, partindo do estímulo da mimese da xilogravura. Nós improvisávamos o próximo movimento seguinte da imagem, com a regra dela ser em desequilíbrio, criando assim, cenas em "flashes".
Apesar de cada atriz fazer seu próprio
improviso, por estarmos no mesmo “enquadramento”, era possível estabelecer leituras de
nossas reações. Essas leituras das imagens eram colocadas em contato com nossos
estímulos literários, e começamos a conectar algumas ações do improviso com
personagens e situações presentes nos textos sobre o massacre de Canudos. Em
paralelo a isso, começamos a pesquisar estímulos vocais, trabalhando
diariamente com as caixas de ressonância vibratórias, inspiradas em Grotowski,
e também com mimeses de vocalizações de animais, como por exemplo, bezerros,
gatos, patos, corujas, cobras. Explorávamos essa sonoridade como forma de
estimularmos vozes que saíssem do cotidiano e fossem mais expressivas, mais impactantes,
assim como as imagens. Ficamos admiradas ao percebermos que essas sonoridades
de animais poderiam ser levadas para uma maneira de falar o texto, explorando a
musicalidade e também textura de uma fala. Voltando o exercício para o trabalho, percebemos que certas sonoridades de animais remetiam às
senhoras que acompanham as procissões, cantando ladainhas, com vozes que não
necessariamente eram afinadas, mas muito potentes e vibrantes. A partir de
algumas sonoridades estabelecidas, começamos a improvisar uma melodia para
cantar algumas ladainhas, e percebemos que apesar de sermos duas, a vibração
vocal dava a impressão de canto em coro.
A partir do treinamento
de seis meses, que além da mimese das xilogravuras e vocais incluía exercícios de bastão,
caminhada em câmera lenta, partes do corpo em evidência, exercícios de
oposição, enraizamento e leveza, equilíbrio, entre outros, começamos a direcionar
o material para composição e também a utilizar alguns textos para estimular
novos exercícios, passando então para a fase criativa. Todo o treinamento foi filmado, e a partir da plasticidade de alguns, fomos percebendo características
que poderiam ser aproveitadas para a cena, como por exemplo: durante os
exercícios de improvisação, percebi a tendência da atriz a se direcionar sempre
para o chão, com um peso mais denso, enquanto eu tinha a tendência de improvisar
mais com o movimento dos braços, de forma mais leve. A partir dessa observação,
tive a ideia de criar uma cena onde haveria um boi e uma árvore, o estereótipo
ao se pensar no sertão nordestino: a carcaça do boi e a árvore seca, tão
faladas no capítulo “A Terra” do livro de Euclides. Mas a nossa ideia não era
sublinhar o imaginário coletivo, mas sim desconstruí-lo. E foi nesse momento em
que a a leitura de mais um livro nos foi fundamental: “A
Invenção do Nordeste”, do professor Durval Muniz de Albuquerque Júnior. Mais uma porta
de criação (e complicação) se abria: nós, como cariocas (no meu caso fluminense),
falando sobre uma guerra do século XIX que aconteceu na Bahia.
Qual era nosso
lugar de fala? Como não cair no lugar comum dos estereótipos nordestinos? Como
falar do que estamos distantes?
Essas questões
(e outras mais sobre encontros e desencontros durante o processo) ficam para o próximo relato.

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