Teatro é a
arte do encontro. Começar mais clichê seria impossível. Mas em uma sociedade
onde a cada dia tudo parece mais acelerado, virtual e individualista, promover e
participar de um encontro verdadeiro é uma das coisas mais difíceis de
acontecer. Por isso, repito: o teatro é a arte do encontro. Do coletivo e das
paixões. Quando se faz teatro de verdade, você não finge. É preciso ser muito
verdadeiro para ser outro em cena. E por isso, a conexão de um grupo é o que
faz com que o teatro aconteça. Aconteça para valer. Teatro é entrega total para
o outro. Para que você se conheça é necessário mostrar-se e confiar em quem
está ao seu lado, pois essa pessoa também lhe mostra e percorre um caminho.
Esse caminho é trilhado ao mesmo tempo individualmente e em conjunto. Quando
acontece o encontro, você sabe. Não dá para forçar e também não se explica
(embora a graça seja sempre tentar).
O teatro pode surgir
de qualquer lugar. Nunca soube definir onde e quando comecei a fazer teatro e o
que pode ser considerado teatral, ou teatralidade. A ideia de Terrabatida: Reminiscência de Canudos surgiu depois que assisti a uma exposição de xilogravuras. A
exposição Espanto e Barbárie em Canudos
do Adir Botelho me pareceu encantadora porque apresentava corpos muito
potentes, que me diziam muito. Diziam-me sobre oposição, sobre expressividade, composição,
disposição espacial, entre outras coisas... Essas imagens me remetiam ao teatro
que eu queria fazer e assistir.
Então, o
primeiro passo para que a minha ideia saísse da cabeça, foi ouvi-la em voz
alta. Compartilhei com pessoas de confiança. O meu encontro foi primeiramente
com a obra, depois com a minha parceira de cena na época, que prontamente se
mostrou interessada não somente pelos corpos, mas pela própria história de
Canudos. Por que não?
Confesso que
achei prepotente levar para o teatro um acontecimento histórico com apenas duas
pessoas em cena. Não tinha experiência como dramaturga, conhecia pouco a
história de Canudos e de Antônio Conselheiro, e inicialmente só gostaria de
jogar com aquelas imagens que me diziam tanto. Queria ver como elas deixavam de
serem desenhos e se transportavam para corpos de carne e osso. No teatro podemos
tudo e devemos estar atentos e sensíveis para todas as possibilidades. A
exposição mostrava uma história que valia a pena ser contada de uma maneira
diferente. Por que não?
Passamos seis
meses investigando nossos corpos e esses corpos da xilogravura. As imagens eram
difíceis, era necessário equilíbrio, força, sustentação. As expressões faciais doíam
nossa boca. A musculatura não estava trabalhada para ficar tanto tempo em uma
posição extracotidiana. Mas essa dor era compensada quando olhávamos para o
vídeo ou para as fotos. Realmente era uma beleza grande a transposição da
idealização das figuras de Adir para nosso corpo. Não conseguíamos representar
fielmente, mas a força estava ali, entre o traço e a nossa pele. E assim
começamos, acreditando nisso, e aguentando a cada dia mais um pouquinho a
rigidez daquelas posições, certas de que a partir desse enraizamento algo iria
florescer.
(continua...)

Nenhum comentário:
Postar um comentário