Pesquise o conteúdo deste blog!

3 de novembro de 2015

A flor da pele: relato de criação teatral (1ª parte) - por Ana Cecilia Reis

Teatro é a arte do encontro. Começar mais clichê seria impossível. Mas em uma sociedade onde a cada dia tudo parece mais acelerado, virtual e individualista, promover e participar de um encontro verdadeiro é uma das coisas mais difíceis de acontecer. Por isso, repito: o teatro é a arte do encontro. Do coletivo e das paixões. Quando se faz teatro de verdade, você não finge. É preciso ser muito verdadeiro para ser outro em cena. E por isso, a conexão de um grupo é o que faz com que o teatro aconteça. Aconteça para valer. Teatro é entrega total para o outro. Para que você se conheça é necessário mostrar-se e confiar em quem está ao seu lado, pois essa pessoa também lhe mostra e percorre um caminho. Esse caminho é trilhado ao mesmo tempo individualmente e em conjunto. Quando acontece o encontro, você sabe. Não dá para forçar e também não se explica (embora a graça seja sempre tentar).

O teatro pode surgir de qualquer lugar. Nunca soube definir onde e quando comecei a fazer teatro e o que pode ser considerado teatral, ou teatralidade. A ideia de Terrabatida: Reminiscência de Canudos surgiu depois que assisti a uma exposição de xilogravuras. A exposição Espanto e Barbárie em Canudos do Adir Botelho me pareceu encantadora porque apresentava corpos muito potentes, que me diziam muito. Diziam-me sobre oposição, sobre expressividade, composição, disposição espacial, entre outras coisas... Essas imagens me remetiam ao teatro que eu queria fazer e assistir.

Então, o primeiro passo para que a minha ideia saísse da cabeça, foi ouvi-la em voz alta. Compartilhei com pessoas de confiança. O meu encontro foi primeiramente com a obra, depois com a minha parceira de cena na época, que prontamente se mostrou interessada não somente pelos corpos, mas pela própria história de Canudos. Por que não?

Confesso que achei prepotente levar para o teatro um acontecimento histórico com apenas duas pessoas em cena. Não tinha experiência como dramaturga, conhecia pouco a história de Canudos e de Antônio Conselheiro, e inicialmente só gostaria de jogar com aquelas imagens que me diziam tanto. Queria ver como elas deixavam de serem desenhos e se transportavam para corpos de carne e osso. No teatro podemos tudo e devemos estar atentos e sensíveis para todas as possibilidades. A exposição mostrava uma história que valia a pena ser contada de uma maneira diferente. Por que não?

Passamos seis meses investigando nossos corpos e esses corpos da xilogravura. As imagens eram difíceis, era necessário equilíbrio, força, sustentação. As expressões faciais doíam nossa boca. A musculatura não estava trabalhada para ficar tanto tempo em uma posição extracotidiana. Mas essa dor era compensada quando olhávamos para o vídeo ou para as fotos. Realmente era uma beleza grande a transposição da idealização das figuras de Adir para nosso corpo. Não conseguíamos representar fielmente, mas a força estava ali, entre o traço e a nossa pele. E assim começamos, acreditando nisso, e aguentando a cada dia mais um pouquinho a rigidez daquelas posições, certas de que a partir desse enraizamento algo iria florescer.

(continua...)                         

               

Nenhum comentário: