No dia 07 de novembro realizei mais uma apresentação do espetáculo “Diário do último ato”, dessa vez a convite do FACE A FACE - Plataforma Lusófona de Artes Performativas . A apresentação teve como cenário o lindíssimo Real Gabinete Português de Leitura. Como atriz, foi emocionante dar vida às palavras de Florbela Espanca nesse lugar cheio de histórias e estórias, e como disse meu amigo Paulo Barbeto: também cheio de mortos, assim como Florbela gostaria de estar próxima dos seus (a poeta perdeu seu irmão, sua mãe e teve dois abortos espontâneos).
A necessidade de resgatar a memória e lucidez do nosso país é (sempre foi?) gigante, e é necessário nos aproximarmos de nossa ancestralidade, nossas raízes, ter consciência das opressões vividas, “da história que a História não conta”, seja através das narrativas orais e visuais que o teatro nos proporciona, seja através dos livros já publicados, seja através das imagens que se perpetuam nas telas grandes do cinema ou nas pequenas e portáteis que carregamos em nossos bolsos.
Dar voz às cartas e poemas de Florbela Espanca, resgatá-la como mulher, artista, poeta, fazer com que as pessoas a conheçam, ou a conheçam mais profundamente, já é um prazer nos palcos. Mas me desafiar a ponto de apresentá-la despida de truques cênicos, olhando constantemente nos olhos das testemunhas de seus últimos momentos, e dialogando com as reações de forma crua e honesta, foi um presente que eu agradeço à Mariana Pimentel e Priscila Maia.
Para que o texto não se prolongue mais, me proponho a escrever posteriormente um pouco sobre os pensamentos técnicos de atuação que foram aprendidos durante essa apresentação e como me engrandeceu como atriz. Mas por hora, apenas gostaria de enfatizar a necessidade dos artistas atuais saírem de suas zonas de conforto, insistirem em seu fazer, buscarem redes de afeto, estarem atentos, fortes e disponíveis para ocuparem novos espaços, mesmo quando não parecer possível. As condições nunca foram (serão?) as ideais, e enfrentaremos desafios cada vez maiores em termos de estrutura, orçamento, espaço. Mas se não nós, quem? Se não agora, quando? Estamos vivas, e viver é essa balança constante de luta e celebração.
Sigamos.