(...) é preciso que, em seu trabalho dramático, os alunos tenham ideias e opiniões, mas, se não estiverem ancoradas no real, essas ideias serão inúteis. O mesmo fenômeno existe na pintura: Corot, Cézanne ou Soutine puderam pintar todo o tipo de árvores, transfigurá-las, captar uma faceta, trabalhar uma certa luminosidade, mas se não existisse “a Árvore” naquilo que pintaram, nada teria acontecido! Voltamos sempre à observação das coisas, ao mais próximo possível da natureza e da realidade humana. Acredito muito nas permanências, naquilo que é a “Árvore de todas as árvores”, a “Máscara de todas as máscaras”, o “Equilíbrio de todos os equilíbrios”. Talvez essa tendência pessoal constitua um obstáculo, mas é um obstáculo necessário. A partir de uma referência reconhecida, que tende à neutralidade, os alunos encontram sua própria posição. Logicamente, essa neutralidade absoluta e universal não existe, é apenas uma tentação. É por isso que o erro é interessante. O absoluto não pode viver sem o erro. A diferença entre o polo geográfico e o polo magnético do globo me interessa muito. O norte não está exatamente no norte! Há um ângulo e, felizmente, esse ângulo existe. O erro não somente é aceito, mas é necessário para que a vida continue, exceto se for muito grave. Um erro grave é catastrófico, mas um pequeno erro é essencial para se viver melhor. Se não houver erro, cessa o movimento. É a morte!
Jacques Lecoq em O Corpo Poético: uma pedagogia da criação teatral