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9 de abril de 2020

Aceitar a pausa teatral. Aprendizados de uma quarentena.

O fazer teatral só se justifica enquanto presença física. Não estou falando aqui das novas possíveis experimentações de linguagens dentro das Artes Cênicas, mas sim desse fazer que só se justifica enquanto criação, processo e resultado a partir do contato com o outro. O teatro tem uma coisa tão humana no seu fazer que se você filmá-lo ele se transforma em uma coisa completamente diferente, e, mesmo ainda sendo possível acompanhar a história ou proposta estética de uma montagem por vídeo, no fundo sabemos que estamos vendo um simulacro sem alma, porque é nessa estranha conexão presencial que a magia do teatro acontece. É assim que funciona.
Então, me deparo agora com essa grande pausa da pulsão que me move diariamente: Ensaios. Pesquisas. Encontros. Conversas. Espetáculos. Não consigo pensar em agir, porque também quero me permitir encontrar uma potência na não-ação. Ainda mais quando qualquer ação em sua maioria se resume ao virtual. Já faz tempo que me sinto sufocada de informação, de bate-papos, de “lives” de imagens, de vídeos, das redes sociais. E era exatamente nesses momentos que começava a me propor um resgate do palpável: imprimia fotos de minha última viagem, tentava ler livros com todas as telas desligadas, e claro, nunca parava de fazer teatro, a arte que mais precisa do contato e da presença real.
Esse não é um texto que vai dizer o que fazer justo no momento onde o encontro, que é a força que gera o meu trabalho, é a mais nociva para a transmissão do vírus. Poderia tentar ser útil aqui e ganhar alguns “likes” e parcerias dando dicas de livros, de composições, de dramaturgias, de projetos de pesquisa para uma possível graduação ou pós, mas nesses dias provavelmente isso já foi exaustivamente pensado e compartilhado.
Esse texto é só para que eu diga para mim, e para quem chegou até aqui, que está tudo bem pararmos (se você tem esse privilégio). Que está tudo bem não fazer nada nesse momento. Observar, abrir um baú de memórias do que já se foi feito. Permitir imaginar futuras trajetórias.
E é acreditando na impermanência do que se faz e se desfaz a cada momento, como ao assistir uma peça de teatro que jamais irá se repetir, que vamos passar por isso. Para voltar a ensaiar, a despertar risos e lágrimas nas pessoas, em nós. É essa pausa que permitirá uma reconexão com nós mesmas, por trás da correria, por trás da técnica e por trás das tantas máscaras e personas do dia-a-dia. Essa pessoa que mora dentro de nós, e que tanto deixamos de lado no cotidiano precisará voltar com mais força e mais atenção. Aceitem a pausa como quando ela aparece em uma boa cena, onde não temos pressa que ela acabe. Perceba o que ela diz, o que a compõe, o peso e a leveza que ela carrega. Não se sintam forçadas a produzir sem parar. Se forem agir, procurem uma ação verdadeira, que venha de uma vontade própria, sem se preocupar em agradar a plateia.
Beijos no coração,
Ana Cecilia Reis
(Diretora e atriz da Cia Plúmbea)

13 de março de 2020

Trechos: O Teatro e a Peste - Antonin Artaud

(...)
Se o teatro essencial é como a peste, não é por ser contagioso, mas porque, como a peste, ele é a revelação, a afirmação, a exteriorização de um fundo de crueldade latente através do qual se localizam num indivíduo ou num povo todas as possibilidades perversas do espírito. Assim como a peste, ele é o tempo do mal, o triunfo das forças negras que uma força ainda mais profunda alimenta até a extinção. Há nele, como na peste, uma espécie de estranho sol, uma luz de intensidade anormal em que parece que o difícil e mesmo o impossível tornam-se de repente nosso elemento normal.
(...)
O teatro, como a peste, é feito à imagem dessa carnificina, dessa essencial separação. Desenreda conflitos, libera forças, desencadeia possibilidades, e se essas possibilidades e essas forças são negras a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida. Não consideramos que a vida tal como é e tal como a fizeram para nós seja razão para exaltações. Parece que através da peste, e coletivamente, um gigantesco abscesso, tanto moral quanto social, é vazado; e, assim como a peste, o teatro existe para vazar abscessos coletivamente.
(...)
O teatro, como a peste, é uma crise que se resolve pela morte ou pela cura. E a peste é um mal superior porque é uma crise completa após a qual resta apenas a morte ou uma extrema purificação. Também o teatro é um mal porque é o equilíbrio supremo que não se adquire sem destruição. Ele convida o espírito a um delírio que exalta suas energias; e para terminar pode-se observar que, do ponto de vista humano, a ação do teatro, como a da peste, é benfazeja pois, levando os homens a se verem como são, faz cair a máscara, põe a descoberto a mentira, a tibieza, a baixeza, o engodo; sacode a inércia asfixiante da matéria que atinge até os dados mais claros dos sentidos; e, revelando para coletividades o poder obscuro delas, sua força oculta, convida-as a assumir diante do destino uma atitude heróica e superior que, sem isso, nunca assumiriam

Trechos do texto O teatro e a peste do livro O Teatro e o seu Duplo de Antonin Artaud.


Imagem: O Combate entre o Carnaval e a Quaresma de Pieter Bruegel

2 de fevereiro de 2020

Diário do último ato concorrendo ao Prêmio Guerra Peixe

O espetáculo "Diário do último ato" foi indicado ao Prêmio Maestro Guerra-Peixe, a principal premiação do setor de cultura da cidade de Petrópolis.
Agradecemos o reconhecimento e parabenizamos a equipe que realiza o evento anualmente!
E para quem ainda não viu o espetáculo, faremos mais duas apresentações no Rio de Janeiro, no Centro Cultural Parque das Ruínas, dias 08 e 09 de fevereiro



14 de janeiro de 2020

Teaser no Real Gabinete Português de Leitura

Confiram o teaser de "Diário do Último Ato" no Real Gabinete Português de Leitura, uma apresentação em parceria com o projeto FACE A FACE - Plataforma Lusófona de Artes Performativas

E lembrando que voltaremos com o espetáculo no Parque das Ruínas, nos dias 25 e 26 de janeiro e 08 e 09 de fevereiro, sempre às 16h.

Que 2020 venha recheado de circulações e trocas! 




31 de dezembro de 2019

Feliz 2020!

O desejo da Cia Plúmbea para 2020 é que cada um (a), independente de seu papel no mundo, não desista de colaborar para ancorar a consciência amorosa coletiva.
Feliz ano novo, com muita arte, encontros, realizações!
Amamos vocês!


13 de dezembro de 2019

Diário do último ato - 2020

O ano ainda não acabou, mas estamos passando por aqui para avisar que no comecinho de 2020 já estaremos em cartaz!

Nos dias 25 e 26 de janeiro e 08 e 09 de fevereiro às 16h, convidamos a todas e todos para vivenciar os últimos momentos de Florbela Espanca neste local de tirar o fôlego.

Diário do Último Ato no Parque das Ruínas.







13 de novembro de 2019

Florbela Face a Face (por Ana Cecilia Reis)

No dia 07 de novembro realizei mais uma apresentação do espetáculo “Diário do último ato”, dessa vez a convite do FACE A FACE - Plataforma Lusófona de Artes Performativas . A apresentação teve como cenário o lindíssimo Real Gabinete Português de Leitura. Como atriz, foi emocionante dar vida às palavras de Florbela Espanca nesse lugar cheio de histórias e estórias, e como disse meu amigo Paulo Barbeto: também cheio de mortos, assim como Florbela gostaria de estar próxima dos seus (a poeta perdeu seu irmão, sua mãe e teve dois abortos espontâneos).
A necessidade de resgatar a memória e lucidez do nosso país é (sempre foi?) gigante, e é necessário nos aproximarmos de nossa ancestralidade, nossas raízes, ter consciência das opressões vividas, “da história que a História não conta”, seja através das narrativas orais e visuais que o teatro nos proporciona, seja através dos livros já publicados, seja através das imagens que se perpetuam nas telas grandes do cinema ou nas pequenas e portáteis que carregamos em nossos bolsos.
Dar voz às cartas e poemas de Florbela Espanca, resgatá-la como mulher, artista, poeta, fazer com que as pessoas a conheçam, ou a conheçam mais profundamente, já é um prazer nos palcos. Mas me desafiar a ponto de apresentá-la despida de truques cênicos, olhando constantemente nos olhos das testemunhas de seus últimos momentos, e dialogando com as reações de forma crua e honesta, foi um presente que eu agradeço à Mariana Pimentel e Priscila Maia.

Para que o texto não se prolongue mais, me proponho a escrever posteriormente um pouco sobre os pensamentos técnicos de atuação que foram aprendidos durante essa apresentação e como me engrandeceu como atriz. Mas por hora, apenas gostaria de enfatizar a necessidade dos artistas atuais saírem de suas zonas de conforto, insistirem em seu fazer, buscarem redes de afeto, estarem atentos, fortes e disponíveis para ocuparem novos espaços, mesmo quando não parecer possível. As condições nunca foram (serão?) as ideais, e enfrentaremos desafios cada vez maiores em termos de estrutura, orçamento, espaço. Mas se não nós, quem? Se não agora, quando? Estamos vivas, e viver é essa balança constante de luta e celebração.

Sigamos.